Suporte de 3 meses para avaliação de fertilidade no Brasil com etapas de encaminhamento e avaliação 2026: guia analítico e clínico
O panorama da infertilidade no Brasil em 2026
A infertilidade afeta aproximadamente 17% dos casais em idade reprodutiva no Brasil, segundo parecer do Comitê de Andrologia da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH). 1 A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo enfrentará algum grau de dificuldade reprodutiva ao longo da vida. 2 Nesse contexto, a janela de 3 meses frequentemente citada como referência para uma avaliação inicial estruturada abrange consultas clínicas, coleta de histórico reprodutivo, exames laboratoriais básicos como espermograma e ultrassonografia transvaginal, além do planejamento das etapas seguintes de encaminhamento. 3
Em 2023, o Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) registrou 56.578 ciclos de reprodução assistida no Brasil, volume superior a 35% em relação aos 41.586 procedimentos realizados em 2020. 4 Esses dados refletem um crescimento expressivo na busca por investigação e tratamento reprodutivo, pressionando tanto a rede pública quanto a privada a organizar fluxos de atendimento mais eficientes e escalonados.
Critérios clínicos que acionam a investigação dentro do período de 3 meses
A definição clínica de infertilidade estabelece ausência de gravidez após 12 meses de relações sexuais regulares sem contracepção para mulheres com menos de 35 anos. Para mulheres com 35 anos ou mais, esse prazo é reduzido para 6 meses, dado o declínio progressivo da reserva ovariana. 5 Para mulheres com 40 anos ou mais, a investigação deve ser imediata, sem período de espera. 6 Esses marcos temporais definem quais pacientes iniciam avaliação estruturada dentro do suporte de 3 meses.
Além dos prazos padrão, determinados sinais clínicos justificam investigação antecipada, independentemente do tempo de tentativa. Entre eles estão ciclos menstruais muito irregulares ou ausentes, histórico de endometriose, cirurgias pélvicas prévias, doença inflamatória pélvica, abortos de repetição, tratamentos oncológicos anteriores, diagnóstico de síndrome dos ovários policísticos (SOP) e suspeita de alterações tireoidianas ou hiperprolactinemia. 7 Nessas situações, o período de 3 meses é utilizado integralmente para investigação ativa, não para observação passiva.
Etapas de encaminhamento: do ponto de entrada ao centro especializado
O fluxo de encaminhamento no SUS inicia-se obrigatoriamente na Unidade Básica de Saúde (UBS), onde é realizada a triagem inicial e gerado o encaminhamento regulado para serviços de média ou alta complexidade. 3 A regulação é organizada pelos estados e municípios por meio de sistemas como a Central Nacional de Regulação (CNR) do Ministério da Saúde, que gerencia a fila e a disponibilidade de vagas em centros especializados. 8 O tempo de espera entre a UBS e o primeiro atendimento especializado varia por região e pode ultrapassar o período inicial de 3 meses, dependendo da capacidade instalada local.
Na rede privada, o encaminhamento costuma partir do ginecologista ou obstetra assistente, que solicita os exames iniciais e, com base nos resultados, refere o paciente a um especialista em reprodução humana. Planos de saúde estão obrigados pelo Rol de Procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) a cobrir consultas e exames de investigação de infertilidade, desde que haja solicitação médica justificada. 9 Contudo, procedimentos de alta complexidade como a Fertilização in Vitro (FIV) não são automaticamente cobertos pela maioria dos contratos, conforme entendimento atual do Superior Tribunal de Justiça (STJ). 10
Exames realizados durante os 3 meses de avaliação
A investigação estruturada no período inicial abrange quatro pilares fundamentais avaliados simultaneamente no casal. A avaliação do fator feminino inclui dosagens hormonais no 2º ao 5º dia do ciclo menstrual, compreendendo FSH, LH, estradiol, AMH (hormônio antimülleriano) e prolactina, além de TSH para rastreamento tireoidiano. 11 A ultrassonografia transvaginal avalia morfologia uterina, contagem de folículos antrais e presença de cistos ou miomas. Quando indicada, a histerossalpingografia avalia a permeabilidade tubária.
| Exame | Objetivo | Timing no ciclo |
|---|---|---|
| FSH, LH, Estradiol | Reserva ovariana e função hipofisária | Dias 2 a 5 |
| AMH | Reserva ovariana independente do dia | Qualquer dia |
| TSH e Prolactina | Rastreamento hormonal sistêmico | Qualquer dia |
| Ultrassonografia transvaginal | Morfologia uterina e folículos antrais | Dias 2 a 5 |
| Espermograma | Fator masculino | Após 2 a 5 dias de abstinência |
A inclusão do espermograma do parceiro desde a avaliação inicial é recomendada por diretrizes internacionais e nacionais, pois o fator masculino está presente, isolado ou combinado, em aproximadamente 50% dos casos de infertilidade do casal. 12 O guideline AUA/ASRM afirma que a dificuldade de concepção em 12 meses ocorre no todo ou em parte por causa masculina nessa mesma proporção. 13 Omitir essa avaliação inicial resulta em atraso diagnóstico evitável.

Acesso público: centros de referência e critérios de elegibilidade
O Centro de Reprodução Assistida da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC-UFRN), em Natal, é referência para as regiões Norte e Nordeste e oferece procedimentos como inseminação intrauterina (IIU), fertilização in vitro (FIV), punção de epidídimo (PESA) e preservação de gametas para pacientes oncológicos, tudo via SUS. 14 O acesso exige encaminhamento por unidade de saúde, relacionamento estável e limite de idade de até 38 anos e 11 meses para a paciente feminina. 15
A disponibilidade de serviços habilitados para reprodução assistida no SUS não é uniforme no território nacional. Muitos estados carecem de centros credenciados pelo Ministério da Saúde, o que torna o acesso à FIV pelo sistema público particularmente restrito em regiões sem infraestrutura especializada. 16 Casos de urgência reprodutiva, como baixa reserva ovariana em mulheres acima de 40 anos, enfrentam tensão adicional entre o tempo biologicamente disponível e a capacidade de espera da fila regulada.
Riscos, limitações e pontos de atenção no processo
O período de 3 meses representa uma janela de avaliação inicial, não um ciclo completo de tratamento. Ao final desse período, casais podem receber diagnósticos que ainda requerem etapas adicionais, como laparoscopia diagnóstica, histeroscopia, biópsia endometrial ou cariotipagem. Infertilidade Sem Causa Aparente (ISCA), que responde por cerca de 15% dos casos, demanda exclusão sistemática de todas as outras etiologias antes do diagnóstico. 6
Fatores de estilo de vida exercem papel determinante na fertilidade e integram a avaliação clínica. Tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal elevado e exposição a disruptores endócrinos impactam diretamente a qualidade oocitária e a função espermática. 17 Além disso, a dimensão emocional da investigação não deve ser subestimada: ansiedade prolongada, estigmas sociais e o peso do processo diagnóstico afetam a adesão ao tratamento e o bem-estar do casal. A abordagem multiprofissional, contemplando suporte psicológico, é recomendada em centros de referência. Casais devem estar cientes de que filas de espera no setor público, limitações contratuais em planos privados e custos de tratamentos não cobertos são barreiras reais que influenciam a continuidade do cuidado após a avaliação inicial.
Normatização e regulação do processo em 2026
A Resolução CFM nº 2.320/2022 do Conselho Federal de Medicina estabelece as normas para reprodução assistida no Brasil, enquanto a RDC nº 771/2022 da ANVISA regulamenta boas práticas em células germinativas e embriões humanos para uso terapêutico. 18 Essas normativas definem padrões laboratoriais, critérios de doação de gametas e responsabilidades das clínicas, impactando diretamente a qualidade do processo de avaliação e encaminhamento. A Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) e a FEBRASGO publicam diretrizes clínicas que orientam condutas diagnósticas e protocolos de investigação adotados por serviços públicos e privados em todo o país. 19
Em 2023, foram congelados 115.318 embriões no Brasil, volume 32,8% superior ao registrado em 2020, segundo dados do SisEmbrio publicados pelo Jornal USP, demonstrando expansão contínua da medicina reprodutiva nacional. 4 Esse crescimento impõe pressão regulatória e logística sobre todos os elos do processo, desde a triagem inicial na UBS até a transferência embrionária em centros de alta complexidade, tornando a compreensão das etapas de encaminhamento e avaliação um instrumento essencial para pacientes e gestores de saúde em 2026.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) - sbrh.org.br
- Organização Mundial da Saúde (OMS) - who.int
- Ministério da Saúde (Brasil) - gov.br/saude
- Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) via Valor Econômico - valor.globo.com
- Inventre Clínica de Fertilidade - inventre.com.br
- Grupo MedCof - grupomedcof.com.br
- Fertilidade.org - fertilidade.org
- Central Nacional de Regulação (CNR) - gov.br/saude
- Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) - gov.br/ans
- Tenório da Silva Advocacia - tsa.adv.br
- Central Injetáveis Blog - blog.centralinjetaveis.com.br
- Inventre - Infertilidade não é só feminina - inventre.com.br
- AUA/ASRM Guidelines via Inventre - inventre.com.br
- G1 RN / Maternidade Escola Januário Cicco - g1.globo.com
- BNews RN - bnewsrn.com.br
- TSA Advocacia - SUS e Fertilização in Vitro - tsa.adv.br
- Central Injetáveis - Estilo de vida e fertilidade - blog.centralinjetaveis.com.br
- SBRH - Manual de Boas Práticas / RDC 771/2022 ANVISA - sbrh.org.br
- FEBRASGO - febrasgo.org.br