Obesidade: injeções pelo SUS e como ter acesso em 2026 - Panorama Completo das Iniciativas, Critérios e Limitações
O Contexto Nacional: Obesidade como Doença de Saúde Pública
A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença crônica de dimensão epidêmica. No Brasil, os últimos dados do sistema Vigitel indicam que cerca de 25% da população apresenta obesidade 1. Esse cenário coloca o país diante de uma demanda crescente por tratamentos eficazes, especialmente após a popularização global das chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos injetáveis à base de princípios ativos como a semaglutida e a liraglutida, pertencentes à classe dos agonistas do receptor GLP-1.
Apesar da grande procura, o acesso a esses medicamentos pelo SUS ainda é limitado e envolve critérios específicos. Em âmbito nacional, não existe diretriz geral do Ministério da Saúde para aplicação desses remédios na rede pública, já que eles não são incorporados ao SUS de forma ampla 2. O que existe em 2026 são iniciativas localizadas, projetos-piloto e avaliações em andamento pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
O Projeto-Piloto Federal: Real-Bari em Porto Alegre
Em 26 de junho de 2026, o Ministério da Saúde deu início a um projeto-piloto inédito no Brasil, batizado de Real-Bari, conduzido pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre (RS). O estudo envolve 250 pacientes acompanhados pela rede pública, todos com obesidade grave ou associada a comorbidades e com indicação prévia de cirurgia bariátrica 3. O primeiro paciente a receber a aplicação foi Guilherme Henrique Streppel Panichi, motorista de aplicativo de 39 anos, em cerimônia com a presença do ministro Alexandre Padilha 4.
O medicamento utilizado no estudo é o Wegovy (semaglutida sintética), da Novo Nordisk, em doses de até 2,4 miligramas semanais. Os participantes serão acompanhados por equipes multidisciplinares durante dois anos, com avaliação de indicadores como percentual de perda de peso, evolução da qualidade de vida e resultados de exames clínicos 5. Segundo o Ministério da Saúde, 91% dos pacientes com obesidade atendidos pelo GHC apresentam a forma mórbida da doença, com IMC médio acima de 53,8, e apenas 47% têm condições clínicas para realizar a cirurgia bariátrica 6.
Centros Participantes e o Programa Global de Acesso Equitativo
Paralelamente ao projeto-piloto federal, a farmacêutica Novo Nordisk anunciou um Programa Global de Acesso Equitativo, realizado em parceria com o governo dinamarquês, que contempla três centros do SUS no Brasil. Dois já foram confirmados: o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, e o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro. Um terceiro centro ainda seria selecionado 7. O programa tem duração inicial de dois anos, com possibilidade de extensão por mais um ano, sem previsão de abertura de vagas para novos pacientes fora dos que já estão em acompanhamento nesses centros 8.
Também em março de 2026, o Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade brasileira a oferecer o Ozempic pelo SUS municipal, em iniciativa do prefeito Eduardo Paes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, presente ao evento, tratou o tema com cautela, afirmando que o medicamento deve ser destinado a pessoas que, por necessidade de saúde, não conseguem emagrecer pelos meios convencionais 9.
Iniciativas Estaduais e a Desigualdade no Acesso
Enquanto o governo federal conduz sua avaliação, estados como Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal já estão distribuindo análogos de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, em suas redes públicas. Essa ação representa, em grande parte, uma resposta à judicialização da saúde, onde pacientes recorrem à Justiça para obter o direito ao tratamento 10. No município de Urupês, no interior de São Paulo, o Mounjaro (tirzepatida) passou a ser oferecido gratuitamente para até 200 pacientes, sendo a primeira iniciativa do tipo no estado 11.

Essa descentralização cria um cenário de acesso desigual: a disponibilidade do tratamento passa a depender de onde o cidadão mora e da capacidade financeira de cada estado, em vez de uma política unificada para todo o território nacional 12. Em contrapartida, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), por meio de sua 12ª Câmara de Direito Público, negou o fornecimento gratuito de semaglutida a uma paciente de Araçatuba com obesidade e comorbidades, citando parecer desfavorável do NatJus sobre a falta de evidências de superioridade do medicamento em relação às alternativas disponíveis 13.
Critérios Clínicos Exigidos para Acesso ao Tratamento
O acesso às injeções para obesidade pelo SUS, nos programas existentes, segue critérios clínicos rigorosos. No projeto Real-Bari, é necessário ter diagnóstico de obesidade há pelo menos 12 meses e histórico de falha em tratamentos convencionais, como dietas estruturadas e atividade física regular 14. O programa de Urupês estabelece critérios ainda mais detalhados, exigindo idade igual ou superior a 40 anos, IMC igual ou maior que 35 kg/m² com ao menos uma comorbidade relevante, ou IMC igual ou maior que 30 kg/m² com pelo menos duas comorbidades, além de tentativa prévia comprovada de tratamento não farmacológico por no mínimo seis meses 15.
Os grupos prioritários nos centros ligados ao Programa Global de Acesso Equitativo são pacientes com obesidade associada a diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares 16. Especialistas reforçam que o medicamento apresenta baixa eficácia quando utilizado sem acompanhamento complementar, sendo indispensável o suporte multiprofissional que inclua prática de atividade física e orientação nutricional 17.
Aspectos Regulatórios, Riscos e Perspectivas para o Futuro
Do ponto de vista regulatório, a Anvisa aprovou em maio de 2026 uma atualização da posologia do Wegovy, permitindo, em situações específicas, a utilização de uma dose de manutenção de até 7,2 mg por semana, baseada nos estudos clínicos STEP UP e STEP UP T2D 18. Além disso, a Anvisa aprovou cinco novas canetas para tratamento da obesidade registradas por comparação com o produto de referência Ozempic, ampliando o portfólio regulatório disponível 19. A patente da semaglutida venceu no Brasil em março de 2026, abrindo caminho para versões genéricas, embora a redução de preços não deva ocorrer de imediato, devido a entraves regulatórios e industriais 20.
No campo legislativo, o Senado brasileiro analisa o PL 160/2026, apresentado pela senadora Dra. Eudócia, que propõe o licenciamento compulsório da tirzepatida (Mounjaro), permitindo ao governo autorizar a fabricação do medicamento mesmo com a patente vigente, para ampliar a oferta no SUS 21. A Conitec, que em 2022 recomendou não incorporar a liraglutida para tratamento de obesidade, conduz uma nova avaliação sobre a inclusão da semaglutida para adultos com obesidade grave e alto risco cardiovascular 22. Enquanto decisão federal não é tomada, pacientes que buscam tratamento pelo SUS devem procurar a Unidade Básica de Saúde de referência para avaliação clínica inicial e eventual encaminhamento a serviços especializados em endocrinologia.
Fontes
- Terra.com.br - Canetas para obesidade estarão disponíveis para tratamento em três hospitais do SUS
- IstoÉ Dinheiro - Canetas para obesidade estarão disponíveis para tratamento em 3 hospitais do SUS
- BNewsRN - SUS começa a aplicar caneta emagrecedora em pacientes e abre estudo inédito sobre obesidade no Brasil
- Três Passos News - Gaúcho é o primeiro brasileiro a receber aplicação de caneta emagrecedora fornecida pelo SUS
- Jornal Opção Tocantins - Ministério da Saúde lança projeto-piloto para uso de canetas emagrecedoras no SUS
- GZH/Gaúcha ZH - Canetas emagrecedoras no SUS: Porto Alegre inicia estudo com 250 pacientes
- Veja.abril.com.br - Caneta antiobesidade: saiba quais os centros do SUS que vão oferecer tratamento gratuito
- Terra.com.br - Canetas para obesidade estarão disponíveis para tratamento em três hospitais do SUS
- BBC News Brasil - Só pobres serão gordos? A revolução das canetas emagrecedoras ainda esbarra na desigualdade
- Nova Geração Saúde - Canetas emagrecedoras no SUS: estados adotam, análise vem aí
- Agência GBC - Conheça cidade do Brasil que está disponibilizando Mounjaro gratuito pelo SUS
- Nova Geração Saúde - Canetas emagrecedoras no SUS: estados adotam, análise vem aí
- G1 Globo - Justiça nega caneta emagrecedora gratuita a mulher obesa
- BNewsRN - SUS começa a aplicar caneta emagrecedora em pacientes e abre estudo inédito sobre obesidade no Brasil
- Agência GBC - Conheça cidade do Brasil que está disponibilizando Mounjaro gratuito pelo SUS
- Terra.com.br - Canetas para obesidade estarão disponíveis para tratamento em três hospitais do SUS
- OHoje.com - Governo avalia incluir canetas emagrecedoras no SUS
- Anvisa - Anvisa aprova atualização da posologia do medicamento Wegovy
- Estadão - Anvisa aprova 5 novas canetas para tratamento da obesidade
- BBC News Brasil - Ozempic sem patente: por que a revolução das canetas emagrecedoras ainda esbarra na desigualdade
- Senado Federal - Projeto libera produção do Mounjaro para ampliar oferta no SUS
- Nova Geração Saúde - Canetas emagrecedoras no SUS: estados adotam, análise vem aí